sábado, 3 de março de 2012


Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de um boçal!

Por te cruzarem, quantas mães não açoitaram,

Quantos filhos em vão nasceram!



Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses d’outros, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Quando a alma é pequena.



Quem quer passar além do Bojador

Teria de ter um pouco de amor.

Deus ao mar o sangue e o inferno deu,

E por essa história nasceu Orfeu.
Queria ser poeta. Poderia fingir a dor que deveras sinto. Padeceria as duas dores, ou quem sabe mais, das quais ele tem direito: a dor sentida, a dor fingida e também a não sentida, a lida. Pelo menos em duas delas a razão se entreteria com o comboio de cordas. Mas não sou poeta, não posso fingir a dor, não entendo as poesias que leio e viro escravo do meu coração, que é uma barca que não sabe navegar...